Morte de ‘Carmen’ faz nascer a ópera em Brasília

Ciganos são fascinantes. Carmen, a mais fascinante dentre eles. No último domingo (24/07) os brasilienses tiveram a oportunidade de ouvir as últimas notas de harpa do II Festival de Ópera de Brasília. E todos queriam participar. A lotação máxima do Teatro Nacional, 1500 lugares, foi aumentada em duzentas pessoas com a inclusão de cadeiras extras. Depois foi a vez dos que sentaram na escada e ainda assim mais de 700 pessoas ficaram na porta implorando para entrar. Tinha gente sentanda até no palco, público como cenário! Todos queriam ver Carmem renascer no palco, para vê-la morrer no fim e voltar sempre a vida em outro local. 

A ópera de quatro atos Carmen foi composta pelo francês Georges Bizet e é a mais famosa das composições não italianas. E claro, Carmen, a cigana espanhola, fica muito bem falando seus “je t’aime”. A execução se prolongou por quatro horas, que, sem exagero algum, pareceram minutos. Com um leve atraso de dez minutos, a execução começou com uma infundada homenagem do secretário de cultura ao governador Agnelo. Música destoante do resto, Hamilton Pereira foi sumariamente vaiado. Pena que poucos ouviram a promessa com a qual fechou seu discurso: “todos os anos Brasília sediará um festival de ópera”.

Confira a matéria da UnB TV sobre a apresentação:

As poucas críticas, reuni-las-ei aqui: O cenário estava simples até demais, para compreender o que acontecia, o espectador era obrigado a ler a todo minuto o programa ou acompanhar as legendas, já que a montagem do palco não ajudava muito. Os figurinos foram tão modernos (ternos e vestidos pretos) que no quarto ato, quando Carmen surge magnífica em sua roupa de camadas vermelha, pareceu que ela era a ‘novidade’, não os outros. O coro era grande demais para uma peça tão minimalista. Sem cenário, 60 pessoas em um palco parecem uma multidão. O teatro, em si, que precisa de uma boa reforma para voltar a ser habitado pelos homens da cidade, que agora tem 1,80m, não mais os 1,65m da época da inauguração. (Um rápido comentário: ver um jogador de futebol americano tentando se espremer neste espaço chega a ser mais cômico que a própria peça).

E agora vem os muitos elogios: Primeiro, a iluminação, única coisa que permitia ao público saber onde é que ele estava. Os figurinos, sóbrios, mas de muita qualidade. As roupas de Escamillo e Carmen devem ter levado meses para alcançar tamanha riqueza de detalhes. À Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, emocionante e muito bem sincronizada, e também à batuta do maestro Cláudio Cohen no comando deste projeto de trazer a ópera à Brasília.

Um cumprimento especial se faz necessário a brilhante [corrigido] Patrícia Mello, em ‘Carmen’ apresentou-se como Micaela, e por vezes, especialmente em sua ária no quarto ato, chegou a ofuscar a protagonista. Os ciganos em geral estavam muito bem e mostraram que para a voz se destacar bastam cinco e não 60 como haviam na maioria das cenas.

Agora lá vem ela: Carmen. Não vou revelar muito do enredo, basta que saibamos a capacidade que a protagonista tem de enlouquecer os homens, em especial D. José, para que a compreendamos. Ela é capaz de se safar da prisão só com sua lábia e com sua beleza, mas não se prende a nada. Mere Oliveira, mezzo-soprano de carreira internacional, foi escalada para dar vida a essa voluptuosa cigana em sua adaptação candanga, e não fez feio. Em sua ária praticamente sem acompanhamento da orquestra (só com suas castanholas e pés) mostrou toda a potência de sua voz.  Foi aplaudida de pé pelos dois mil espectadores presentes e não conteve a emoção, ajoelhou-se e chorou em agradecimento. Qualificada, bela e acima de tudo, humilde.

E foi no quesito humildade que a peça foi mais fantástica. Na hora de receber os aplausos, não só Carmen, D. José, Micaela e Escamillo. Não, todos os membros do coro foram aplaudidos, a orquestra foi ovacionada à exaustão. Cláudio Cohen recebeu mais homenagens do público do que a própria Mere. Montadores, costureiras, motoristas, ou seja, os que fazem o teatro realmente acontecer, foram deixados para o fim, como a cereja do bolo. Eles, excluídos dos aplausos, tiveram seu momento de brilhar em mais essa morte de Carmen.

E como Mere disse em sua entrevista à UnB TV: “Não tem quem não goste de ópera, tem quem nunca viu”. No próximo ano quem sabe seja a sua oportunidade de sair do segundo grupo.

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5 respostas em “Morte de ‘Carmen’ faz nascer a ópera em Brasília

  1. Mere é uma mezzo maravilhosa. Carmem é o seu papel mas ela brilha e emociona em todos os outros que a vi interpretar.

  2. Essa temporada foi linda, sucesso BEM maior que o esperado. Deu uma emoção enorme ver tanta gente prestigiando um gênero tão esquecido pela nossa cultura. Como disse a sra. Asta Rose Alcaide, mostramos que Brasília tem público para a cena lírica. Acho que as temporadas deviam contar com mais apresentações daqui pra frente!

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