Reforma das passagens subterrâneas apaga grafites no Eixão

As obras nas 16 passarelas devem terminar em outubro e administração tem projeto para evitar vandalismo

As passagens subterrâneas sob o Eixão, que eram reduto da prática do grafitismo, ganharam paredes brancas. A Administração de Brasília, em parceria com a Novacap, está revitalizando e pintando as passarelas que se estendem pelos 16 quilômetros da via. Em outubro, quando terminam as reformas, deve ser lançado o projeto Grafite, proposta que pretende colorir os muros pálidos. A ideia, porém, não agrada todos os grafiteiros.

O projeto Grafite, uma parceria da Administração com a Secretaria de Cultura e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), ainda não tem edital. A intenção é que com o fim das obras sejam convidados grafiteiros de todo o DF para trabalhar nos muros. Segundo a assessoria da Administração, o incentivo ao grafite é a única forma de evitar que as paredes sejam pichadas.

O grafiteiro e artista plástico Leandro Mello não concorda com a postura do governo. “Acho este o argumento mais pobre”, alegou. ‘Ninguém está interessado em promover o trabalho, valorizar o artista, o objetivo é só evitar o vandalismo”, reclama. As 16 passagens eram consideradas pelos grafiteiros como “spots”, locais de expressão da arte nas ruas. Atualmente, porém, sete já foram pintadas, quatro estão em reforma e restam apenas cinco passarelas originais.

O desejo dos grafiteiros de expor nesses locais vem do fluxo diário de 120 mil pessoas por essas passarelas. Segundo a Administração, todos os grafites que havia anteriormente nas passagens subterrâneas eram ilegais e por isso foram removidas como parte da reforma. Em alguns locais, no entanto, apenas a pintura foi revitalizada. A instalação elétrica não foi refeita e os bueiros continuam quebrados. O governo admite que as obras têm prazo de validade curto e que não tem condições de refazer a pintura com frequência.

“Se vão ser grafitadas depois, para que deixar tanto tempo em branco?” reclama Pedro Pipoka, grafiteiro que já participou de exposições na cidade. “Sem o que aprendi nas ruas como exercício da minha criatividade, nunca teria ido para as galerias de arte”, avalia.  A mais recente mostra que participou foi Arte Radical, no Espaço Cultural Contemporâneo (Ecco), que continua em cartaz e reúne trabalhos de 44 grafiteiros do DF e Entorno.

Fim do túnel

O projeto Grafite, que ainda nem começou,não deve durar muito. O governo do Distrito Federal premiou em abril um projeto de reforma completa das passagens subterrâneas. A proposta do escritório paulista de Gustavo Portezani foi eleita por unanimidade pelo júri, vencendo 50 concorrentes. O projeto prevê a construção de ciclovias e lojas próximas as passagens, mas nenhum espaço para a expressão de arte. O único projeto que continha grafites em suas pranchetas recebeu apenas menção honrosa.

As tentativas de reforma, para Mello, não adiantam. “As passarelas são cavernas urbanas”, compara. “Na noite alguém sempre vai passar por lá para deixar uma marca, e nem sempre vai ter alguém para inibí-lo”, conclui.

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